COESÃO E COERÊNCIA

Estrutura Textual Dissertativa

COESÃO TEXTUAL
Todo texto bem escrito obedece a uma hierarquia de informações, que se dividem em parágrafos. Isto é, o texto avança em partes semanticamente organizadas de modo que as informações não se atropelem. Mas o avanço das informações deve ser costurado, ou então será apenas uma seqüência avulsa de dados. É como se disséssemos, como no velho ditado: “uma coisa puxa a outra”.

COERÊNCIA TEXTUAL
A coerência textual “diz respeito ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm a constituir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentido.”(KOCK, Ingedore Villaça).É a relação que se estabelece entre as diversas partes do texto, criando uma unidade de sentido. Está ligada ao entendimento, à possibilidade de interpretação daquilo que se ouve ou lê. Mas não basta costurar uma frase a outra para dizer que estamos escrevendo bem. Além da coesão, é preciso pensar na coerência. É possível escrever um texto coeso sem ser coerente.



Para que esta “costura” seja clara e lógica, a língua dispõe de uma série de recursos coesivos, os quais estabelecem relação entre o que foi dito (elementos anafóricos) e o que se vai dizer (elementos catafóricos) que ligam uma coisa com outra. Essas palavras são chamadas de relatores. Preste atenção nas palavras em negrito no texto a seguir:

Pede-se atenção ao teste que se segue. “ Era uma vez uma terra distante onde todo mundo trabalhava naquilo que mais gostava – e, mesmo assim só quando acordasse disposto. Nesse lugar, escola e assistência médica eram gratuitas, ninguém pagava aluguel e, nas horas de folga, todos se dedicavam à dança, ao teatro, à música e às artes em geral.”

Veja que em si essas palavras pouco significam – elas apenas “apontam” para outras palavras. Tais relatores são elementos extremamente importantes da linguagem escrita: a eles devemos a precisão e a clareza de um texto.
Os relatores são também fundamentais na costura dos parágrafos. Cada parágrafo novo deve contar com as informações dos parágrafos anteriores, que não precisam ser repetidas, mas que devem ser levadas em conta para que o texto não se transforme numa mera colagem de informações avulsas, sem relação entre si. De alguma forma, o início do parágrafo seguinte deve relacionar-se com o que foi dito antes. Por exemplo, o segundo parágrafo de um texto começa assim: “Quem escolheu a resposta D acertou na mosca (...) “. É claro que isso só faz sentido para quem já leu o parágrafo anterior. Só assim sabemos o que é “resposta D”.

Anáfora e Catáfora

Uma das modalidades de coesão é a remissão. E a coesão pode desempenhar a função de (re)ativação do referente. A reativação do referente no texto é realizada por meio da referenciação anafórica ou catafórica, formando-se cadeias coesivas mais ou menos longas.

A remissão anafórica(para trás) realiza-se por meio de pronomes pessoais de 3ª pessoa (retos e oblíquos) e os demais pronomes; também por numerais, advérbios, artigos e outros. Exemplos:
1. A jovem acordou sobressaltada. Ela não conseguia lembrar-se do que havia acontecido e como fora parar ali.
2. Márcia olhou em torno de si. Seus pais e seus irmãos observavam-na com carinho.
3. O concurso selecionará os melhores candidatos. O primeiro deverá desempenhar o papel principal na nova peça.
4. O juiz olhou para o auditório. Ali estavam os parentes e amigos do réu, aguardando ansiosos o veredito final.
5.Os quadros de Van Gogh não tinham nenhum valor em sua época. Houve telas que serviram até de porta de galinheiro. (sinônimos)
6. Glauber Rocha fez filmes memoráveis. Pena que o cineasta mais famoso do cinema brasileiro tenha morrido tão cedo.(epíteto-expressão que qualifica a pessoa)
7. O ministro foi o primeiro a chegar. (Ele) Abriu a sessão às oito horas em ponto e (ele) fez então seu discurso emocionado.(elipse)
8. Lygia Fagundes Teles é uma das principais escritoras brasileiras da atualidade. Lygia é autora de "Antes do baile verde", um dos melhores livros de contos de nossa literatura. (repetição de parte do nome)

A remissão catafórica (para a frente) realiza-se preferencialmente através de pronomes demonstrativos ou indefinidos neutros, ou de nomes genéricos, mas também por meio das demais espécies de pronomes, de advérbios e de numerais. Exemplos:
1. O incêndio havia destruído tudo: casas, móveis, plantações.
2. Desejo somente isto: que me dêem a oportunidade de me defender das acusações injustas.
3. O enfermo esperava uma coisa apenas: o alívio de seus sofrimentos.
4. Ele era tão bom, o presidente assassinado!

COERÊNCIA TEXTUAL
A coerência textual “diz respeito ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm a constituir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentido.”(KOCK, Ingedore Villaça).É a relação que se estabelece entre as diversas partes do texto, criando uma unidade de sentido. Está ligada ao entendimento, à possibilidade de interpretação daquilo que se ouve ou lê. Mas não basta costurar uma frase a outra para dizer que estamos escrevendo bem. Além da coesão, é preciso pensar na coerência. É possível escrever um texto coeso sem ser coerente. Observe:

Os problemas de um povo têm de ser resolvidos pelo presidente. Este deve ter ideais muito elevados. Esses ideais se concretizarão durante a vigência de seu mandato. O seu mandato deve ser respeitado por todos.

Ninguém pode dizer que falta coesão a esse parágrafo. Mas de que ele trata mesmo? Dos problemas do povo? Do presidente? Do seu mandato? Fica difícil dizer. Embora ele tenha coesão, não tem coerência. A coesão não funciona sozinha. No exemplo acima, teríamos que, de imediato, decidir qual a sua palavra-chave: presidente ou problemas do povo? A palavra escolhida daria estabilidade ao parágrafo. Sem essa base estável, não haverá coerência no que se escrever; e o resultado será um amontoado de idéias.

Enquanto a coesão se preocupa com a parte visível do texto, sua superfície, a coerência vai mais longe, preocupa-se com o que se deduz do todo.

Na verdade a coerência não está no texto, ela deve ser construída a partir dele, levando-se, portanto, em conta os recursos coesivos presentes no texto, funcionando como pistas para orientar o interlocutor na construção do sentido.
A coerência exige uma concatenação perfeita entre as diversas frases, sempre em busca de uma unidade de sentido. Não se pode dizer, por exemplo, numa frase, que o "desarmamento da população pode contribuir para diminuir a violência", e , na seguinte, escrever: "Além disso, o desemprego tem aumentado substancialmente". É evidente a incoerência existente entre elas.
Assim também é incoerente defender o ponto de vista contrário a qualquer tipo de violência e ser favorável à pena de morte, a não ser que não se considere a ação de matar como uma ação violenta. (Obra consultada: Roteiro de Redação- VIANA, Antônio Carlos -coord. et al)

Vamos estudar as relações lógicas nos textos argumentativos.
O texto de opinião (argumentativo), escrito para se defender ou para se atacar uma idéia, um ponto de vista qualquer, trabalha fundamentalmente com relações lógicas. E a língua concretiza essas relações lógicas através de relatores específicos que estabelecem uma ponte lógica entre o que se disse e o que se vai dizer: mas, porque, pois, se, quando, no entanto, apesar de, etc.

Observe esse exemplo:
Os problemas sociais não são resolvidos porque não há vontade política de resolvê-los.

Nesse tipo de relação, apresenta-se um fato (os problemas sociais não são resolvidos) e a causa ( não há vontade política de resolvê-los) . Observe que a ordem dos elementos pode ser alterada, o relator pode ser outro, mas a natureza da relação (causa e efeito direto) permanece inalterada:

Não há vontade política de resolver os problemas sociais e por isso eles não são resolvidos.

Não esqueça: há muitos modos de marcar essa relação, além dos populares “ porque” e “por isso”. Veja mais alguns:
Como não há vontade política de resolver os problemas sociais, eles não se resolvem.
Já que não há vontade política, os problemas sociais não se resolvem.

Podemos também estabelecer relações de causa e efeito pelo uso de alguns verbos. Veja:
- A falta de vontade política impede a solução dos problemas sociais.
- Decorre da falta de vontade política a ausência de solução para os problemas políticos.
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