Dicas Português


Mais dicas da professora Noely Landarin sobre elaboração de redações.

13. Adjetivos certos na medida certa
O emprego indiscriminado de adjetivos pode prejudicar as melhores idéias. Para que dizer um vendaval catastrófico destruiu Itu quando vendaval já traz implícita a idéia de catástrofe?

Outro mau uso do adjetivo ocorre quando empregado intempestivamente, como se o autor quisesse "embelezar" o texto. O que ele consegue , no mínimo, é confundir o leitor.
Diante do mundo incomensurável, incógnito e desmedido que nos cerca, o homem se sente minúsculo, limitado, inepto, incapaz de compreender o menor movimento das coisas singulares, magnéticas e imprevisíveis com que se depara em seu cotidiano impregnadoe assoberbado de interrogações.

14. Lugares - comuns e modismos
Evite palavras, frases, expressões ou construções vulgares. A renovação da linguagem deve ser preocupação constante de quem escreve. Não há boa idéia que sobreviva nem texto cheio de lugares-comuns. Abandone:
a) frases do tipo:
· agradar a gregos e troianos
· arrebentar a boca do balão
· botar pra quebrar
· chover no molhado
· deitar e rolar
· dar com os burros n'água
· deixar o barco correr solto
· dizer cobras e lagartos
· estar em petição de miséria
· estar coma bola toda
· estar na crista da onda
· ficar literalmente arrasado
· ir de vento em popa
· passar em brancas nuvens
· ser a tábua de salvação
· segurar com unhas e dentes
· ter um lugar ao sol

b) modismos, invenções, como:
agudizar // alavancar // exitoso // imperdível // a nível de // curtir // galera // magnificar // gratificante // obstaculizar // chocante // apoiamento

c) particularidades léxicas e gramaticais
1. ao nível de: (= à mesma altura) // em nível de (= hierarquia)
2. ao encontro de: (= aproximação) // de encontro a: (= posição contrária)
3. em princípio : (= em tese) // a princípio: (= no início)
4. tampouco: (=também não) // tão pouco: (=muito pouco)
5. acerca de:(= a respeito de) // cerca de: (=durante) // a cerca de:(idéia de distância // há cerca de: (aproximadamente no passado)
6. bastantes: (= muitos, suficientes) // bastante : (muito)
7. afim(afins): (=afinidade) // a fim de: (=para, um objetivo)

d) Não Use: ao meu ver / a cores / a nível / às expensas / comunicamo-lhes / conseguimos nos concentrarmos / ajoelhamos-nos / face ao / haja visto / inflingirem / econômicas-financeiras / à rua / custei para / haviam(=existiam) / ao par (= ciente) / fazem 15 dias / de sábado / iremos no / intervi / implicou em /

Use: a meu ver // em cores // ao nível // a expensas // comunicamos-lhes // conseguimos nos concentrar // ajoelhamo-nos // em face de // haja vista // infringirem // econômico-financeiras // na rua // custou-me // havia // a par // faz 15 dias // aos sábados // iremos ao // intervim // implicou

15.Na introdução:
Ao escrever seu primeiro parágrafo, você pode fazê-lo de forma criativa. Ele deve atrair a atenção do leitor. Por isso, evite os lugares-comuns como: atualmente, hoje em dia, desde épocas remotas, o mundo de hoje, a cada dia que passa, no mundo em que vivemos, na atualidade.
Listamos aqui algumas sugestões para começar um texto.

a) Uma declaração (tema: liberação da maconha)
É um grave erro a liberação da maconha. Provocará de imediato violenta elevação do consumo. O Estado perderá o precário controle que ainda exerce sobre as drogas psicotrópicas e nossas instituições de recuperação de viciados não terão estrutura suficiente para atender à demanda.

A declaração é a forma mais comum de começar um texto. Procure fazer uma declaração forte, capaz de surpreender o leitor.

b) Divisão (tema: exclusão social)
Predominam ainda no Brasil duas convicções errôneas sobre o problema da exclusão social: a de que ela deve ser enfrentada apenas pelo poder público e a de que sua superação envolve muitos recursos e esforços extraordinários. Experiências relatadas nesta Folha mostram que o combate à marginalidade social em Nova York vem contando com intensivos esforços do poder público e ampla participação da iniciativa privada.

Ao dizer que há duas convicções errôneas, fica logo clara a direção que o parágrafo vai tomar. O autor terá de explicitá-lo na frase seguinte.

c) Oposição (tema: a educação no Brasil)
De um lado, professores mal pagos, desestimulados, esquecidos pelo governo. De outro, gastos excessivos com computadores, antenas parabólicas, aparelhos de videocassete. É este o paradoxo que vive hoje a educação no Brasil.

As duas primeiras frases criam uma oposição (de um lado / de outro) que estabelecerá o rumo da argumentação.

d)Alusão histórica (tema: globalização)
Após a queda do muro de Berlim, acabaram-se os antagonismos leste-oeste e o mundo parece ter aberto de vez as portas para a globalização. As fronteiras foram derrubadas e a economia entrou em rota acelerada de competição.

O conhecimento dos principais fatos históricos ajuda a iniciar um texto. O leitor é situado no tempo e pode ter uma melhor dimensão do problema.

e)Uma pergunta (tema: a saúde no Brasil)
Será que é com novos impostos que a saúde melhorará no Brasil? Os contribuintes já estão cansados de tirar dinheiro do bolso para tapar um buraco que parece não ter fim. A cada ano, somos lesados por novos impostos para alimentar um sistema que só parece piorar.

A pergunta não é respondida de imediato. Ela serve para despertar a atenção do leitor para o tema e será respondida ao longo da argumentação.

f) Citação (tema: política demográfica)
"As pessoas chegam ao ponto de uma criança morrer e os pais não chorarem mais, trazerem a criança, jogarem num bolo de mortos, virarem as costas e irem embora". O comentário do fotógrafo Sebastião Salgado, falando sobre o que viu em Ruanda, é um estímulo no estado de letargia ética que domina algumas nações do Primeiro Mundo.

A citação inicial facilita a continuidade do texto, pois ela é retomada pela palavra comentário da segunda frase.

g) Citação de forma indireta (tema: consumismo)
Para Marx a religião é o ópio do povo Raymond Aron deu o troco: o marxismo é o ópio dos intelectuais. Mas nos Estados Unidos o ópio do povo é mesmo ir às compras. Como as modas americanas são contagiosas, é bom ver de que se trata.

Esse recurso deve ser usado quando não sabemos textualmente a citação. É melhor citar de forma indireta que de forma errada.

h) Exposição de ponto de vista (tema: o provão)
O ministro da Educação se esforça para convencer de que o provão é fundamental para a melhoria da qualidade do ensino superior. Para isso, vem ocupando generosos espaços na mídia e fazendo milionária campanha publicitária, ensinando como gastar mal o dinheiro que deveria ser investido na educação.

Ao começar o texto com a opinião contrária, delineia-se, de imediato, qual a posição dos autores. Seu objetivo será refutar os argumentos do opositor, numa espécie de contra-argumentação.

i) Uma frase nominal seguida de explicação (tema: a educação no Brasil)
Uma tragédia. Essa é a conclusão da própria Secretaria de Avaliação e Informação Educacional do Ministério da Educação e Cultura sobre o desempenho dos alunos do 3º ano do 2º grau submetidos ao Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), que ainda avaliou estudantes da 4ª série e da 8ª série do 1º grau em todas as regiões do território nacional.

A palavra tragédia é explicada logo depois, retomada por essa é a conclusão.

j) Adjetivação (tema: a educação no Brasil)
Equivocada e pouco racional. Esta é a verdadeira adjetivação para a política educacional do governo.

A adjetivação inicial será a base para desenvolver o tema. O autor dirá, nos parágrafos seguintes, por que acha a política educacional do governo equivocada e pouco racional.

l) Ilustração (tema: aborto)
O Jornal do Comércio, de Manaus, publicou um anúncio em que uma jovem de dezoito anos, já mãe de duas filhas, dizia estar grávida, mas não queria a criança. Ela a entregaria a quem se dispusesse a pagar sua ligação de trompas. Preferia dar o filho a ter que fazer um aborto.
O tema é tabu no Brasil.(...)
Você pode começar narrando uma fato para ilustrar o tema. Veja que a coesão do parágrafo seguinte se faz de forma fácil; a palavra tema retoma a questão que vai ser discutida.

m) Uma seqüência de frases nominais (frases sem verbo) (tema: a impunidade no Brasil)
Desabamento de shopping em Osasco. Morte de velhinhos numa clínica do Rio. Meia centena de mortes numa clínica de hemodiálise em Caruaru. Chacina de sem-terra em Eldorado dos Carajás.
Muitos meses já se passaram e esses fatos continuam impunes.

O que se deve observar nesse tipo de introdução são os paralelismos que dão equilíbrio às diversas frases nominais. A estrutura de cada frase deve ser semelhante.

16.Na Conclusão
Evite chavões para concluir um texto, tais como "diante do exposto" , "conforme o mencionado acima" , "pelo que foi dito acima", "após as considerações acima". Lute sempre por uma linguagem própria, distante do lugar comum.

17. Palavras Abstratas
As palavras abstratas podem ser empregadas, na maioria das vezes, no singular, sem nenhum prejuízo para a frase. Antes de usá-las no plural, experimente o singular e veja se o sentido da frase ficou mais preciso.

O projeto do governo tem gerado muita polêmica. ( E não "muitas polêmicas")
A pena de morte não vai acabar com o crime. ( E não "com os crimes")

Faça o mesmo quando o substantivo abstrato for segundo elemento de uma locução ligada por "de" e for empregado em sentido genérico.

Os níveis de emprego caíram muito nos últimos anos.( E não “de empregos”)

18. Repetições desnecessárias
Não repita palavras sem nenhuma razão estilística.

O servidor que ganha um salário mínimo pode ficar certo de que vai receber, no final do mês, o salário mínimo sem nenhum reajuste.

Melhor dizer:
O servidor que ganha um salário mínimo pode ficar certo de que vai recebê-lo, no final do mês, sem nenhum reajuste.

19. Pleonasmos
Alguns pleonasmos passam despercebidos quando escrevemos. Veja os mais comuns e troque-os pela forma exata:
·a cada dia que passa = a cada dia
·acabamentos finais = acabamentos
·continua ainda = continua
·elo de ligação = elo
·encarar de frente = encarar destemidamente
·há doze anos atrás = há doze anos
·juntamente com = com
·monopólio exclusivo = monopólio

20. Aspas
Não use aspas indiscriminadamente. Elas devem aparecer nos seguintes casos: citações, arcaísmos, neologismos, gírias, estrangeirismos, expressões populares, ou para indicar que determinada palavra está sendo usada com sentido diferente do habitual.

Para esconder os lucros exorbitantes que tinham com os negócios, as corretoras usavam endereços, contas e registros de empresas "laranjas".

A palavra laranjas significa, no caso, "de fachada".
As palavras também servem para indicar ironia:

Os "revolucionários" não dispensam um uísque importado e carros do último tipo.

21. ETC.
Não use etc. sem nenhum critério. Trata-se da abreviatura da expressão latina et cetera , que significa "e as demais coisas". Só devemos usá-la quando os termos que ela substitui são facilmente recuperáveis.

A notícia foi veiculada pelos principais jornais do país como O Globo, Jornal do Brasil etc.
O leitor bem informado sabe que outros jornais ficaram subentendidos, como Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, A Tarde.
Eis um caso de emprego de etc. que se deve evitar:
Muitas vezes os pais não sabem como falar aos filhos problemas relacionados ao sexo, à morte etc.
Quais seriam os outros problemas? Fica difícil saber.

Ainda duas observações sobre o etc.:
· nunca escreva "e etc." , pois a conjunção "e " já faz parte da abreviatura. Seria o mesmo que dizer "e e as demais coisas"
· é indiferente o uso da vírgula antes.

22. O senso comum
Além da baixa informatividade, também pode comprometer a qualidade de um texto dissertativo-argumentativo o emprego de argumentos baseados no senso comum, isto é, em julgamentos que, embora não apresentem qualquer base científica, acabam sendo tomados como “verdades” sociais.
Leia o seguinte parágrafo de um texto dissertativo-argumentativo (transcrito tal qual foi produzido e, por isso, apresentando diversos problemas gramaticais), produzido a propósito da violência.
Muitas pessoas pobres, ficam muitas vezes indignadas ao ver, uma outra pessoa como ela, só que não passa fome como ela, ou seja, é rica e na maioria, ladrão, que rouba do povo e isso faz com que a população fique revoltada, e se manifestará em conflitos entre camadas sociais no qual o favelado odeie o outro de uma classe superior, e tendo oportunidade para acabar com o outro não vai perder a chance. (redação de aluno, 3º ano do ensino médio)
O autor constrói seus argumentos a partir de idéias preconceituosas – baseadas no senso comum -, segundo as quais o rico geralmente é ladrão e o pobre ou o favelado é violento.
Idéias como essas e outras como “todos os políticos são corruptos”, “o jovem é sempre rebelde por natureza”, “o brasileiro é oportunista”, “homem que é homem não chora”, “ as mulheres dirigem pior que os homens”, “Futebol não é assunto para as mulheres”, “todo oriental é honesto e trabalhador” , etc. devem ser evitadas, pois, além de não terem nenhum fundamento, tornam o texto fraco do ponto de vista argumentativo.
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