Por que o Linux terá sucesso em desktops


Ex-editor do Linux Journal, Nicholas Petreley, defende que o sistema operacional aberto dará início a um grande momento do “lado do cliente. O Crescente uso de software livre em dispositivos móveis impulsionará adoção em PCs


por Nicholas Petreley, InformationWeek EUA

05/11/2007

Acredito que o Linux se tornará o sistema operacional padrão consagrado para os desktops. Embora ainda vá demorar algum tempo para que muitos usuários se libertem dos vínculos com o Windows, existe uma boa razão para acreditar que este dia chegará.
Considere que a comunidade global já está começando a apoiar os formatos de documentos padrão. Além disso, à medida que browsers, como o Firefox, conquistam maior participação de mercado, os usuários estão menos tolerantes com os sites que podem ser acessados apenas com o Internet Explorer. Contudo, a transição é lenta e continuará a ser lenta. A maioria das pessoas só vai deixar de utilizar o Windows quando estiver em questão o fator financeiro.

O cliente genérico perfeito
Um desktop é compatível com diversos métodos de hábitos de trabalho. Por exemplo, você pode editar um documento com um processador de textos local, como o Microsoft Word, do Windows, ou pode utilizar o Google Docs. Você precisa do Windows para utilizar o Word, mas qualquer sistema operacional com um bom browser poderá trabalhar bem com o Google Docs. Desde que seja eliminado o problema de migrar para um novo formato de documento, a questão passa a ser: "Por que estou pagando tanto para utilizar um Windows cheio de problemas, sobrecarregado e inseguro?" Simplificando, elimine a força de inércia dos sistemas herdados, e o desktop mais barato e menos problemático se tornará mais desejável.

A longo prazo, o Linux será o cliente genérico perfeito. Este é o aspecto central do desenvolvimento de softwares gratuitos, que faz deste o ponto focal para a computação genérica e aberta. À medida que as pessoas continuam a utilizar o Linux como base para telefones celulares, ou gravadores de vídeo digital, (Digital Video Recorders, como TiVo e Dish Network), roteadores e outros sistemas dedicados, ele está se tornando presente praticamente em todas as plataformas, exceto o PC. Isso apenas torna mais provável que ele domine o PC no futuro.

Quanto mais o Linux se torna a plataforma padrão consagrada para o desenvolvimento de software de qualquer tipo, mais atraente ele fica como a plataforma para computação pessoal. Qualquer superposição entre dispositivos e PCs economiza a duplicação de esforços. O vasto repositório de softwares gratuitos disponíveis mediante uma simples solicitação faz o Linux ser ainda mais atrativo como a base para desenvolvimento.

Muitas das tarefas que o Linux deve realizar em um PC ele já conclui em dispositivos, como telefones celulares. Talvez, nunca cheguemos a presenciar a era dos computadores em rede por US$100, mas a computação em rede está avançando, conforme evidencia-se pela crescente dependência de sistemas de e-mail com base na web e pelo surgimento de aplicativos em rede, como o Google Docs. Devemos agradecer ao Ajax e Java pelos ricos recursos para clientes, atualmente disponíveis em seu browser para PC e/ou para telefone celular.

Quanto mais dependermos desse tipo de computação, mais invisíveis os sistemas operacionais se tornarão. A maioria das pessoas não sabe ou não se preocupa com que sistema operacional seu telefone celular funciona. Sempre podemos nos preocupar mais com o que estamos executando em nosso PC, mas a diferença entre os dois desaparecerá gradativamente. Quando isso acontecer, o Linux deverá ser a melhor opção, porque ele já é prevalente em muitos dispositivos. O Linux só não pode obter sucesso como um cliente genérico de computação em rede. As pessoas continuarão a utilizar seus PCs como uma estação de trabalho capacitada, mesmo quando isso não for apropriado. Fazer isso é da natureza dos usuários de computadores. Por essa razão, o Linux precisa de uma experiência em desktop que seja persuasiva. Ele já dispõe do Compiz Fusion, mas mesmo que a capacitação para 3D no Linux não exija os mesmos recursos de hardware que o Vista, muitos usuários do Linux ainda se recusarão a instalar o Compiz ou resolverão desativá-lo.

O desktop precisa de um avanço mais substancial em seus conceitos. O novo KDE, denominado KDE4, parece ser promissor nesse sentido. Aparentemente, os desenvolvedores do KDE estão tentando acrescentar algo de novo à experiência em desktops, que não seja apenas “para inglês ver”. O KDE4, ou partes dele, será executado no Windows e no Mac OS-X, mas ele será totalmente nativo no Linux, e deverá beneficiar o Linux mais do que qualquer outra plataforma.

O KDE4, a proliferação do Linux nos dispositivos, a tendência para a computação genérica em rede, o fato de que o Linux é “livre” (tanto em termos de liberdade quanto pelo fato de ser gratuito), e outros fatores contribuem para o seu inevitável sucesso nos desktops. Mas o Linux ainda precisa de algo mais. Ele precisa de oportunidades para suplantar os sistemas herdados e também tem de superar alguns importantes obstáculos.

As oportunidades do Linux
Tanto os sucessos quanto os fracassos da Microsoft proporcionam uma substancial gama de oportunidades para o Linux conquistar uma significativa participação no mercado de desktops. É muito difícil, especialmente no nível corporativo, mudar os sistemas operacionais dos desktops, por isso, qualquer sistema herdado, como o Windows, sempre terá uma enorme vantagem. Mas a Microsoft tem cometido tantos erros ultimamente, que alguém deve dar à ela o crédito por encorajar os usuários a procurar por um sistema operacional alternativo. O Windows já era considerado notoriamente inseguro, mas a Microsoft está agravando esse problema com o Vista, que é caro, tem muitas falhas, é incompleto, tem um processo de licenciamento muito complexo, fica comprometido com questões de DRNM (Digital Rights Management), é desafiado no que se refere a hardware, e freqüentemente é atualizado sem permissão do usuário.

Como foi observado anteriormente, as pessoas deverão estar mais propensas a mudar para um novo sistema operacional quando a questão passar a envolver dinheiro. A Microsoft deveria ser esperta, no sentido de continuar proporcionando suporte técnico para o Windows XP, que é considerado "suficientemente bom", uma vez que qualquer iniciativa para forçar as pessoas a fazerem a atualização para o Vista poderá criar a referida situação "de passar a envolver dinheiro". O risco de se ajustar a um novo sistema operacional se torna muito mais agradável, quando isso permite economizar o custo de atualizar para um desktop do qual você sabe que não vai gostar.

Talvez, o erro mais grave da Microsoft tenha sido sua fracassada tentativa de utilizar a SCO como um instrumento para criar medo, incerteza e dúvida sobre o Linux. Quem apoiou a SCO agora está agüentando as conseqüências. Isto torna muito menos provável que os analistas de alto nível cometam o mesmo erro, agora que a Microsoft está atacando o Linux diretamente, ao afirmar que ele viola suas patentes de software.

Quando lançou o Windows 95, a Microsoft deu início a uma estratégia que terminaria por deixá-la em uma situação bastante complicada. Por um lado, ela teve sucesso ao aproveitar sua única vantagem, integrando aplicativos de 32 bits do Windows para eliminar praticamente toda a concorrência no setor de aplicativos para desktop de uso comum. O problema é que a Microsoft acabou ficando sem amigos. Por exemplo, se o Lotus Smartsuite e o WordPerfect Office ainda estivessem competindo com o Microsoft Office, seria praticamente impossível para o Linux entrar no mercado de desktops. As companhias ficariam felizes em coletar seus rendimentos com os aplicativos do Windows. Não haveria nenhum incentivo para apoiar outra plataforma para desktop.

Infelizmente, para a Microsoft, esse não é um erro que ela pode consertar facilmente. Ela não pode arcar com as conseqüências de desistir de sua significativa participação de mercado com o Office apenas para tentar reconquistar alguma lealdade para a plataforma Windows. Agora que os danos já foram causados, as companhias estão mais inclinadas a apoiar plataformas nas quais o campo de atuação seja estável, e é aí que está a oportunidade para o Linux e outros sistemas operacionais para desktop.

Mas enquanto a Microsoft torna quase impossível para a concorrência obter lucro com os aplicativos para desktop de uso comum, do Windows, o Linux não necessariamente aproveitará essa oportunidade. Os melhores aplicativos de uso comum para o Linux são aqueles gratuitos e de fonte aberta. Embora muitas companhias estejam começando a reconhecer a superioridade do software gratuito, a maioria ainda não descobriu como ganhar dinheiro com ele – pelo menos, elas percebem que não podem ganhar dinheiro do mesmo modo que faziam no antigo mercado.

Outro problema com essas oportunidades geradas pelas atitudes da Microsoft é que elas simplesmente tornam mais fácil para qualquer sistema operacional alternativo conquistar participação no mercado de desktop, não necessariamente o Linux. O Mac OS-X poderá colher tais benefícios, e provavelmente já está fazendo isso. O Linux poderá ficar em vantagem, a longo prazo, mas em curto prazo, é necessário que sejam feitas algumas mudanças adicionais no Linux para que ele possa explorar essas oportunidades, além de também ter de superar alguns obstáculos importantes.

Obstáculo: são necessários mais sistemas Linux pré-instalado
Segundo a experiência pessoal de muitos usuários do Windows e do Linux, este é, sem dúvida, muito mais fácil de ser instalado do que o primeiro, já que reconhece o hardware apropriadamente durante a instalação. Obviamente, o Linux pode ser difícil de ser instalado quando ocorre algum problema no reconhecimento do hardware, mas o mesmo pode acontecer com o Windows.

Alguém pode argumentar que, atualmente, os instaladores do Linux estão fazendo um trabalho melhor de reconhecimento de hardware. Isso é irrelevante. A instalação mais fácil é aquela que você não precisa fazer. É por isso que muitas pessoas acreditam, quer seja verdade ou não, que o Linux é mais difícil de ser instalado do que o Windows. É que eles têm de instalar o Linux, mas não precisam instalar o Windows. Quando compram um PC, o Windows já vem instalado. O Mac OS-X tem a vantagem, nesse aspecto. Compre um Mac, e o seu sistema operacional de desktop estará instalado para você.

O modo de superar este obstáculo é óbvio. Obtenha o Linux pré-instalado em PCs, e os usuários do Linux não precisarão lidar com os aspectos da instalação. Ubuntu e Dell formaram uma parceria para disponibilizar o Linux pré-instalado. Isso é um grande começo, mas é apenas um começo. O Linux precisará de um suporte técnico muito mais amplo nas pré-instalações, a fim de ter sucesso nos desktops.

Obstáculo: o KDE precisa substituir o GNOME como a GUI preferida do Linux
O GNOME é o ambiente de desktop gráfico padrão do Red Hat Linux, Ubuntu, SUSE, e outros. O GNOME pode não estar mantendo o Linux afastado dos desktops, mas ele também não está vendendo o Linux para desktops. Aparentemente, o GNOME não consegue “se decidir” se ele é destinado a usuários principiantes ou para hackers super-experientes. Isso poderia ser diferente, se o GNOME, como o KDE, tentasse servir a ambos os tipos de usuários. Em vez disso, a abordagem do GNOME de ser amigável para o usuário consiste em torná-lo impossível (ou quase impossível) de realizar qualquer coisa, exceto as operações mais básicas. Se você realmente quiser fazer alguma coisa que o GNOME não quer que você faça, será preciso tomar uma medida mais drástica e editar o registro ou outros arquivos de configuração do GNOME. Os desenvolvedores do GNOME argumentam que você pode manter os usuários livres de problemas e evitar confundi-los, se eliminar tudo, exceto os recursos mais simples. Até mesmo Linus Torvalds questionou a sabedoria dessa estratégia de design, escrevendo um e-mail enviado por mala-direta, há dois anos, dizendo: "Se você pensa que os usuários de seu GNOME são idiotas, somente idiotas irão utilizá-lo".

Alguém pode argumentar que o GNOME tem dado certo porque as principais distribuições de Linux o utilizam, por padrão. Isso poderia ser verdadeiro, se a participação do Linux no mercado de desktops estivesse crescendo rapidamente graças a essas distribuições, mas a lamentável participação do Linux nesse mercado pode ter outra justificativa. Essas distribuições são populares, mas somente entre aqueles que já estão familiarizados com o Linux, o segmento que pode, mais provavelmente, ser atraído pelo GNOME. Na realidade, o GNOME é atrativo para alguns usuários experientes no Linux, porque ele é um dos poucos ambientes para desktop completos, que é mais “leve” do que o KDE; o que torna o GNOME mais apropriado para o uso em servidores. As limitações no GNOME também são não-intrusivas para aqueles que sabem como contorná-las; por exemplo, alguém que não tenha medo do registro ou da linha de comando do GNOME.
O que deve ser feito para eliminar esse obstáculo? A Red Hat endossou o GNOME devido a questões de licenciamento que possivelmente foram resolvidas há muito tempo. O SUSE favorece o GNOME porque um dos primeiros desenvolvedores do GNOME praticamente comanda a companhia. Só Deus sabe por que o Ubuntu utiliza o GNOME por padrão (embora você possa fazer o download e instalar o Kubuntu, que utiliza o KDE por padrão). Mas se essas distribuições querem contribuir para a expansão do Linux nos desktops, elas precisam adotar e promover o KDE como o desktop padrão e/ou pressionar os desenvolvedores do GNOME para que abandonem sua inócua filosofia de desenvolvimento. Isso é especialmente verdadeiro para o Ubuntu, que está na liderança no que se refere a conseguir ter o Linux pré-instalado em marcas populares, como Dell. A participação do Linux no mercado para desktops provavelmente aumentará, de qualquer forma, mas crescerá mais rapidamente com as distribuições mais populares apoiando um desktop gráfico apropriado.

Os formatos abertos de documentos vão direcionar a adoção
O Linux tem dois sistemas legados para “destronar”. O Windows e o Office são praticamente sinônimos, e não existe o Office ou uma suíte totalmente compatível com o Linux. Os usuários devem migrar para os formatos abertos de documentos ou os aplicativos para o Linux precisam aceitar importações perfeitas de arquivos do Microsoft Office. A solução ideal seria migrar para formatos abertos, mas o mercado é que decidirá isso.

Este obstáculo não é tão insuperável quanto parece. Alguém deve se lembrar de que o WordPerfect, certa vez, praticamente dominou o mercado de produtos para processamento de textos, mas as pessoas conseguiam encontrar um meio de migrar para o Office. A Microsoft fará de tudo para tornar difícil qualquer transição a partir do Office, mas ela ainda é possível. O atrativo dos formatos abertos de documentos é inegável, pois eles fazem bem mais sentido do que a “viagem praticamente de mão-única” para o Office. A migração para os formatos abertos de documentos é uma iniciativa em direção à compatibilidade garantida, no futuro.

Conclusão

Apesar dos obstáculos envolvidos, existe uma boa razão para ser otimista sobre o Linux no setor de desktops. Este autor vem utilizando o Linux para desktop quase que exclusivamente, desde meados da década de 90, embora ele exigisse muito mais experiência prática em computadores naquela época do que exige atualmente.

Existe um fator adicional que não pode ser superestimado. Qualquer pessoa que realmente conheça o que significa software gratuito (ou free, em inglês, que também quer dizer livre) também sabe que ser “livre”, se referindo à liberdade, é o mais importante aspecto do Linux. Contudo, ninguém pode negar o poder do fato de algo ser “gratuito”. A Microsoft aplicou este poder para fazer do Internet Explorer o browser mais popular do mundo. O Netscape desapareceu porque a companhia não foi capaz de competir contra um browser gratuito. O Firefox somente tem conseguido competir porque ele também é gratuito. Dos três principais concorrentes no setor de desktops, Windows, Mac OS-X e Linux, apenas um deles é gratuito. Isso continuará ajudando muito a torná-lo o padrão consagrado no mercado de desktops.
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