M-Payment

CENÁRIO
No topo das novas tecnologias em meios de pagamento certamente figura o conceito de mobile payment. Mais pela viabilidade de implementação e poder de penetração do que pela inovação técnica propriamente dita. O uso dos dispositivos móveis acompanha a ascensão de uma sociedade conectada, de cultura e comportamentos digitais, um cenário favorável à adoção de um sistema que convirja funcionalidades bancárias em um gadget tecnológico. 
Na África, os altos custos e a logística de cobrança dos cartões imprimiram um ritmo acelerado à disseminação dos pagamentos móveis, abrindo espaço para um segmento relevante, mas pouco explorado até então, a população não bancarizada.
A Ásia, por sua vez, encarregou-se de testar novas possibilidades e modelos transacionais, ignorando as fronteiras dos serviços tradicionais cunhou a transferência de valores entre dois aparelhos e caminha para substituir até mesmo o uso da moeda corrente.
“As oportunidades que os pagamentos móveis representam são inúmeras: inclusão financeira, bancarização, substituição ao dinheiro, mais facilidade, segurança e praticidade para consumidores, emissores, varejistas e adquirentes”, confirma Eduardo Neubern, diretor de Mobile Payment Products da MasterCard Brasil.
De volta à maior economia da América Latina encontramos diversas iniciativas e startups pesquisando métodos de pagamento através de celulares, smartphones e tablets. No entanto, ainda há baixa aderência do mercado e um ritmo embargado principalmente por questões culturais e pela falta de regulamentação.
“Com tantas opções tecnológicas disponíveis, a meu ver, duas questões travam o crescimento do m-payment no Brasil: regulamentação e cultura”, afirma Peterson Pais, especialista em soluções para o intercâmbio de dados financeiros.


Duelo de gigantes
As grandes empresas também estão se movimentado, e toda a cadeia de meios de pagamento – bancos, processadoras, bandeiras, adquirentes – envolveu-se em uma corrida por inovações e adaptações tecnológicas. O mercado de pagamentos móveis despertou a atenção não só de especialistas como a Paypal, que vem testando uma série de modelos no Brasil, mas também de outros componentes e players do mercado, que vislumbram a eliminação de intermediários para se beneficiar do relacionamento e aproximação da marca com o usuário final.
Até mesmo grandes franquias do varejo, como Starbucks e McDonald’s, tem se aventurado em pesquisas de alternativas de pagamentos móveis, o que poderia reverter-lhes uma ação de engajamento e branding de inovação. No entanto, o segmento que está mais próximo de englobar e absorver essas investidas é o das operadoras de telefonia, pois, além de dominarem o universo prático das transações, detém um outro perfil de relacionamento com o consumidor, e seriam capazes de romper a cultura da insegurança mais do que a interface do sistema tradicional.

Os números do mercado
Um estudo da Accenture sobre pagamento móvel feito com cerca de 1.500 brasileiros mostrou que 40% dos entrevistados planejam aderir a uma alternativa de pagamentos móveis no próximo ano. A pesquisa também afirma que 65% deles estariam dispostos a mudar de operadora, caso ela não ofereça suporte a esse modelo quando aceito na rede de varejo. Esse dado impulsiona ainda mais a inclusão das operadoras no páreo do mobile payment.
No Brasil, 5,4% dos pagamentos são efetuados na esfera mobile, sendo 2,3% feitos via smartphones e 3,1% via tablets (Índice Global de Pagamentos Mobile da Adyen). Já na escala global, o volume financeiro transacionado deve alcançar US$ 235,4 bilhões neste ano, o que representa crescimento de 44% em relação a 2012, segundo dados do Gartner.
M-Banking
A vertente do Mobile Banking, que compreende outras atividades de administração bancária e/ou de investimentos, sustenta outra realidade no Brasil. Por aqui, há muito tempo, tais atividades são praticadas e avançam junto das novas interfaces e funcionalidades dos aparelhos.
“A realidade bancária brasileira é muito diferente da internacional: nosso sistema bancário é muito mais desenvolvido e avançado do que o resto do mundo, inclusive dos países desenvolvidos, principalmente no segmento de transações eletrônicas”, aponta Manuel Fernandes, sócio da KPMG no Brasil.
Paralelamente à escalada do Mobile Payment, o Mobile Banking caminha a passos largos e hoje já conta com aplicativos de home broker, para compra e venda de ações, o que demonstra um grande desejo dos bancos brasileiros em investir em novos canais de relacionamento.
PLAYERS
Uma das principais questões ligadas à disseminação do Mobile Payment é o rearranjo dos players e de seus papéis dentro do vibrante mercado que se desenvolve. De maneira geral, são três as esferas de atuação do M-Payment: as ferramentas para Gestão de Contas, as Plataformas de Pagamentos, e o Processamento das Transações.
Operadoras roubam a cena
O que antes representava uma rede bastante solidificada, parece ter se partido ao olhar ambicioso das participações emergentes. As operadoras de telefonia são o elemento de maior peso nessa mudança, uma vez que participam de maneira intensa do processo e acreditam que serviços financeiros móveis são uma das fontes de renda mais promissoras no futuro.
“Este mercado tem apenas dois grandes players, mas outros se mobilizam para entrar nele, atraídos pelo início do ciclo de reestruturação das transações”, destaca Fernandes.
Das quatro grandes empresas de telecomunicações atuantes no país – Vivo, Claro, Oi e Tim – todas detém parcerias com bancos e outras partes interessadas para fornecer serviços de pagamento móvel. Ainda assim, os enlaces parecem assumir a forma de grandes incubadoras, pois apesar dos testes, projetos e joint ventures, são poucos os produtos lançados comercialmente.
 “O mobile payment pode eliminar alguns players. As empresas de telecomunicações podem adotar a solução para cobrar suas faturas mensais, deixando de fora os bancos e operadoras de cartão de crédito por exemplo. Uma varejista também pode emitir um cartão da loja e ignorar os outros players”, conclui Geppert, sócio-líder da KPMG International para as Américas na área de Communications & Media Advisory.

Bancos buscam parcerias
A defesa de campo do Banco Itaú envolve uma parceria com a Redecard e a Mastercard. Já o Bradesco apostou na bandeira Visa e nas máquinas da Cielo. A operadora Tim faz testes em São Paulo e no Rio com um grupo fechado e estabelecimentos definidos. O banco Bradesco e a operadora de telefonia Claro firmaram acordo para atuar no segmento e prometem o lançamento dos produtos para o próximo ano.
A Caixa Econômica Federal também ‘joga’ com a TIM e a MasterCard, e anuncia novas opções de pagamentos via celular já para 2014. A MasterCard, aliás, que se uniu à operadora Vivo para lançar o Zuum, serviço que une pagamento móvel e cartão pré-pago.
Jogando juntos pelo M-Payment
A expectativa sobre esse burburinho de marcas e parcerias se baseia no fato de que "a união da expertise de bancos e operadoras pode viabilizar a realização de pagamentos móveis em escala no país", como defende Carlos Zenteno, presidente da Claro Brasil.
Ao que parece, esse funil de alianças é o movimento mais próximo de tornar efetivo o uso do pagamento móvel no Brasil, e um dos primeiros reflexos dessa iniciação seria viabilizar o atendimento aos não bancarizados, e à classe C e D.
“É importante lembrar que estamos falando da colisão de duas indústrias, financeira e telecom, que a partir de agora passam a ter que trabalhar juntas, cada qual com a sua função, expertise, clientes e objetivos”, explica Eduardo Neubern. Juntas ou separadas, não se sabe, mas certamente envolvidas.

TECNOLOGIA
Muito se fala sobre as barreiras tecnológicas na implementação do Mobile Payment, mas o que preocupa os especialistas não é a falta de opções e sim a necessidade da definição e possível padronização da escolha. Afinal, a adoção de um padrão é condição para que a modalidade de pagamentos móveis seja disseminada, tanto entre os usuários quanto entre os lojistas.
A realidade é que há uma gama de possibilidades distintas, que vão desde a mais conhecida NFC (Near Field Communications), passando pelo Bluetooth, SMS, WiFi, QRCode, e até o simples pulso sonoro. Isso mesmo, até mesmo a frequência de vibração das ondas sonoras tem sido consideradas e já conquistaram um título comercial. A Way2Ride mantém um sistema onde é possível, com o simples toque de um botão no aplicativo instalado no seu smartphone, gerar um sinal de ultrassom e pagar pela corrida do táxi.

NFC: um candidato frustrado
O “NFC Fórum” foi organizado com o objetivo de debater a padronização da tecnologia utilizada nos pagamentos móveis, e chegou a reunir mais de 140 membros, entre Nokia, Samsung, Google, Paypal, Microsoft, Motorola, LG, etc. Mesmo com o apoio (ou pelo menos, demonstração de boa vontade) de grandes empresas, até o final de 2011 poucos foram os cases de aplicação da tecnologia, e nenhum desfecho significativo emergiu das discussões.
Segundo relatório da Gartner, do total de transações realizadas neste ano, apenas 2% utilizaram tecnologia NFC (Near Field Communications).
Uma possível explicação para a improdutividade dos diálogos é que o NFC exige que o aparelho celular esteja equipado com o hardware do sistema, só então poderia realizar transações e compras como um cartão de débito ou crédito, aproximando o dispositivo móvel de um terminal de pagamento (POS) também equipado com a tecnologia.

Alternativas pipocam
Uma alternativa está sendo testada sob o rótulo da Zuum, e dispensa o uso de um smartphone ou de serviços 3G / 4G para realizar transações e consultas de saldo. É um sistema baseado no USSD(Unstructured Supplementary Service Data), semelhante ao SMS e que, portanto, necessita apenas de uma rede de telefonia móvel convencional.
Na esteira das propostas criativas, desponta a empresa de pagamentos digitais PayPal, propriedade da loja de comércio eletrônico americana eBay, que está testando um sistema que realiza transações financeiras em lojas físicas por meio de reconhecimento facial.
Por outro lado, dentre as investidas mais conservadoras, destaca-se o Square, sistema que acopla um terminal de leitura de cartão ao dispositivo móvel para realizar pagamentos com smartphones ou tablets. O TapBase representa a alternativa da via transacional por bluetooth, assim como a Apple que preferiu aproveitar  seu convencional Bluetooth Low Energy (BLE) e abdicou (pelo menos até agora) da instalação de um hardware de NFC em seus produtos.
Sem definição
Enquanto a indefinição dos sistemas e tecnologias paira sobre o mercado, as interfaces de aplicativos para pagamento com celular crescem estrondosamente, financiadas principalmente pelas bandeiras de teste dos bancos e operadoras.
A penetração dos smartphones na população brasileira ainda não chega a 50%, segundo relatório da Gartner, e o uso dos dispositivos móveis ainda se concentra nas transferências bancárias - 71% das transações -, e compras de mercadorias - 21%.

PONTO DE VENDA
Uma enorme nuvem de inovação se forma a partir das grandes marcas do mercado de meios de pagamento, mas é preciso voltar alguma atenção à experiência dos lojistas e ao desafio de prepara-los e engajá-los para o futuro. É provável que o comércio também se beneficie dos novos meios de pagamento, em especial das opções mobile, pela a rapidez, segurança e redução do índice de inadimplência, mas os lojistas ainda não estão convencidos de que a adesão do público pagará os altos custos de implementação da tecnologia.
A tarifação continua em aberto, e pode pesar na adesão dos comerciantes. De qualquer forma, mesmo o lojista que tem intenção de inovar está sujeito ao ritmo de amadurecimento do mercado e das ofertas reais, com ônus e bônus claramente estabelecidos.
Se as bandeiras, bancos, empresas de tecnologia e telecom tem o papel de educar e conquistar o apreço dos lojistas, estes por sua vez são os mais poderosos evangelizadores do consumidor final, e tem a missão de preparar o terreno para a chegada das novas tecnologias e comportamentos. “Ainda sob o impasse do marco regulatório e o aspecto cultural, não será do dia para a noite que as pessoas deixarão de lado o plástico tradicional para utilizar o celular e migrar de vez para o m-payment”, conclui Peterson Pais.
CONSUMIDORES
A Frost & Sullivan estima que o mercado terá 80 milhões de usuários adeptos aos pagamentos móveis até 2018. Uma grandeza que impacta, mas não assusta, já que os consumidores são os maiores beneficiados pelo uso do m-payment, e seu voto de adesão está na palma de suas mãos.
Um ponto desfavorável diz respeito às quebras de privacidade dos consumidores, que pode levar a um crescimento exponencial da quantidade de informações sobre hábitos de consumo que passarão a estar ao alcance das instituições de pagamento.
Segundo o vice-presidente de Pessoa Física da CAIXA, Fábio Lenza, o objetivo, ao desenhar um modelo de negócio inovador e aderente ao público que pretendem atender, unindo o cartão pré-pago ao celular, é “oferecer tecnologia conveniente e segura, trazendo comodidade e democratizando o acesso a novos serviços financeiros”.
O presidente da MasterCard Brasil e Cone Sul, Gilberto Caldart, reforça a visão de Lenza quando diz que “o principal objetivo deste produto é promover a inclusão financeira, respeitando o modelo aberto da indústria de meios de pagamentos”. Segundo ele, os produtos dessa frente poderiam garantir que “o segmento de baixa renda da população poderá realizar transações de forma rápida, segura e conveniente, sem precisar andar com dinheiro no bolso ou pegar filas”.
Dessa forma, fica claro que o discurso proponente tem vistas aos consumidores das classes C, D e E que, segundo a assessoria da Zuum, “são ativos economicamente, mas não têm conta bancária ou mesmo cartão de crédito”.
Mais do que traçar estratégias e desenhar um público-alvo para as ações de divulgação das iniciativas, é preciso enxergar o usuário real e sua experiência frente à oferta de novos meios. “Independente do tipo de solução de pagamento que utilizamos, precisamos pensar na experiência do consumidor, pois desde a criação do comércio é essa experiência do cliente que transforma o varejo”, aponta o executivo Jairo Santana, gerente de Produtos e Soluções da VeriFone.
 REGULAMENTAÇÃO
Na corrida pela normatização dos pagamentos móveis, que situa a fatia de participação do Governo, foi publicada no Diário Oficial da União a Lei nº 12.865, que dá forma às disposições legais da Medida Provisória 615/2013. A MP havia lançado, em maio deste ano, as bases para a futura regulamentação do pagamento eletrônico por meio de dispositivos móveis no Brasil e já reservava à Anatel um papel relevante, ainda que o protagonismo seja assegurado pelo Banco Central, a quem caberá a gestão do sistema.
A lei aprovada é o embrião das políticas de incentivo e controle dos meios de pagamento móveis no país, e manteve raso o aspecto legal da tarifação, que deverá ouvir o arranjo orgânico do mercado.  Os bancos assumem responsabilidades e riscos mais severos, mas preservam algum poder. A normatização funciona, mas continua em aberto.
CONCLUSÃO
Não restam dúvidas de que o Mobile Payment estará presente no futuro dos meios de pagamento. Mas é uma ilusão dizer que ele já está. Apesar da movimentação e fomento, do crescente interesse, e da notória abertura do mercado, nossos passos são lentos e comedidos, tímidos, sobretudo com relação aos lançamentos comerciais.
O mercado assume um processo de formação que envolve a ruptura de uma macroestrutura regida pelos players tradicionais e reorganiza-se para trazer peças novas e lubrificar as antigas. O fato é que não só as regras do jogo mudaram como os próprios jogadores e até mesmo o público.
Fernando Belfort, em análise para o portal Information Week, resume e categoriza esse cenário ao defender que “a expansão do ecossistema de pagamentos móveis exige integração entre a infraestrutura existente de processamento de pagamentos e aplicações de pagamentos móveis, a educação do usuário final, a confiança do consumidor em relação a aplicações móveis, a interoperabilidade entre os serviços disponíveis no mercado e também a regulamentação do governo”.
Nesse sentido, caminhamos, testamos, aprendemos e evoluímos. Mas ainda estamos distantes de consolidar o uso do mobile payment no Brasil. A galinha dos ovos de ouro, o segmento ultra rentável, o futuro dos meios de pagamento está nas mãos dos conglomerados bancários e de telecomunicações apenas para que estes não o percam de vista (e de posse), mas assim como nos Estados Unidos, com os quais nos espelhamos para medir o tempo das tecnologias, a modalidade ainda não decolou.
Referências
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